Cultura e justiça climática andam juntas | Artigo para Correio do Povo

O Palafita é um programa de reconstrução comunitária que não se faz sozinho, é um conjunto de ações e muitas mãos para que nos tornemos, Vila Flores e as comunidades do entorno, espaços preparados para lidar com as emergências climáticas.

26/10/2026

Pertencer a um território de históricas transformações industriais e urbanas, conviver com demandas complexas de um rastro social de anos de abandono e enxergar, sob o viés da memória, potenciais de futuro é parte do nosso dia a dia no Vila Flores.

Palafitas são construções erguidas sobre estacas com o objetivo de impedir que a água invada as casas em períodos de cheias e são comuns em regiões de várzea dos rios. O Programa Palafita, novo projeto do Vila Flores, metaforicamente, abarca em conceito o desejo de se proteger e que, sob novas estruturas, possa primeiro se reconstruir, depois se preparar e constantemente crescer nas mais diversas atividades que aqui existem. E, dadas as circunstâncias do 4º Distrito após as enchentes de 2024, reconstruir-se é, também, ser parte da recuperação de outros negócios e iniciativas que compõem esta região.

O Palafita é um programa de reconstrução comunitária que não se faz sozinho, é um conjunto de ações e muitas mãos para que nos tornemos, Vila Flores e as comunidades do entorno, espaços preparados para lidar com as emergências climáticas. A partir do apoio financeiro do Fundo Socioambiental CAIXA, desenhamos este projeto com quatro eixos estruturantes. O primeiro deles, chamado “ME CONTA: Reconstrução Comunitária”, se trata de uma ação para a retomada produtiva do território, que ofereceu mentorias técnicas e distribuiu R$ 220 mil em equipamentos para 20 iniciativas impactadas pelas enchentes. O segundo eixo são as oficinas de geração de renda e recuperação socioeconômica, voltadas ao fortalecimento da economia local, qualificação profissional e ampliação de oportunidades para os moradores do 4º Distrito.

Estamos perto do rio e o complexo arquitetônico que abriga nosso centro cultural e nossa comunidade criativa encontrou duas vezes as águas: em 1941 e 2024. E é nesta relação que se fundamentam os outros eixos, as obras no térreo do Vila Flores para inaugurar o Várzea Lab, conjunto de laboratórios que estão sendo configurados com o objetivo de articular conhecimento e pesquisas científicas com saberes comunitários e práticas colaborativas, a fim de encontrarmos respostas diante da crise climática para as reais demandas do território e, para que assim, possamos traçar ações concretas, pautar políticas públicas e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Como nossas práticas sempre se relacionam com a história e a memória, nossos laboratórios ganharam nomes dos rios desta imensa bacia hidrográfica que desembocou aqui. Caí, Gravataí, Jacuí, Taquari-Antas e dos Sinos acolhem, respectivamente, as pautas de riscos e desastres, direito à cidade, alimentação comunitária, educação e sociobiodiversidade e empreendedorismo socioambiental.

Transformarmos o medo em ação e nos aproximarmos dos rios nomeando nossos espaços é, mais que uma escolha imagética ou poética, um ato simbólico de que o encontro com os rios seja uma reverência e que a nossa cidade trabalhe para que o caminho dos rios possa fluir naturalmente e a população viva com tranquilidade.

O Vila Flores não é somente um espaço físico que carrega as memórias de um patrimônio histórico, mas um polo vivo de relações costuradas no respeito à própria história deste território. Quando o movimento de transformação cultural iniciou, depois dos prédios localizados na São Carlos com a Hoffmann terem sido abandonados e caírem em ruínas, a partir da saída das famílias que ali residiam e do esvaziamento da atividade industrial do bairro, em um compasso fluído e orgânico, as salas foram sendo ocupadas por ateliês e escritórios de empreendedores criativos, fazendo florescer o desejo de, em coletivo, criarmos ações que democratizassem o acesso ao que produzimos e acreditamos. Além do colorido dos nossos eventos, que é muito do que o público conhece, desenvolvemos projetos voltados à arte e cultura, educação, arquitetura e urbanismo e empreendedorismo criativo, todos com o fio condutor do impacto social.

A esta união do patrimônio histórico com a comunidade criativa e com uma associação cultural, agentes que poderiam funcionar com sucesso de forma independente, chamamos de Ecossistema Interpotente. E é por meio desta potência conjunta que seguiremos provendo ações em prol do bem comum.

A importância do Vila ser um lugar para todas as pessoas, da rua Voluntários da Pátria ao Morro Ricaldone, utilizando-se da localização geográfica que nos situa entre estes dois territórios tão discrepantes, sempre foi pano de fundo para as nossas ações de costura desse tecido social. Do respeito aos que estavam antes ao entendimento da importância das relações comunitárias e do pertencimento é que a atuação com o loteamento Santa Terezinha, conhecido como a vila dos papeleiros, floresceu em projetos importantes, que não são só exemplos de nosso posicionamento, mas impulso para ampliarmos. O Palafita e o Várzea Lab estão à serviço disso: o aprofundamento e a capilarização da atuação dos projetos sociais, expandindo para as comunidades dos demais bairros que compõem o 4º Distrito.

E a vocação que sempre tivemos, de preservar cidade e memória, contar as histórias destes prédios de quase 100 anos e criar tantas outras, gerando conhecimento e formação para tantas pessoas que estão também e mais à margem das oportunidades, tem sido um chamado ainda mais urgente. É uma emergência cuidarmos do nosso planeta, é uma urgência compartilharmos nossos conhecimentos e nossa capacidade de articulação à serviço de uma cidade e sociedade mais saudáveis.

Sabemos que o caminho sempre foi longo e que o futuro é coletivo e, por isso, precisamos dos olhares e da força das mais diversas esferas da sociedade: lideranças comunitárias, poder público, empresas, universidades. As previsões assustam e articular redes que apoiem e caminhem junto é urgente. Trabalhar para cuidar.

É um chamado que fazemos: O Vila Flores, o Programa Palafita e o Várzea Lab existem para quem resiste neste território. E não queremos apenas resistir, desejamos que todas as pessoas possam prosperar nas suas atividades econômicas, viver melhor e ter como direito o bem-viver.

E antes que as pessoas se perguntem se o Vila Flores vai deixar de ser uma referência das artes, antes que o público se questione sobre a continuidade dos eventos que tanto encantam, garantimos: cultura e justiça climática andam juntas. E tudo isso é uma grande arte!