Olhar a Terra, cuidar da vida

Uma imersão no INPE e CEMADEN, os bastidores da ciência que observa o Brasil, monitora riscos socioambientais e ajuda a proteger vidas.

26/08/2026

Por Aline Bueno, co-gestora do Programa Palafita.

Em tempos de emergências e mudanças climáticas, em que dados sobre o clima e o planeta circulam pelas redes sociais e mídias tradicionais, talvez algumas pessoas possam se perguntar “De onde vem esses dados? Quem produz e analisa eles?”.

Pois bem, tive a oportunidade de conhecer as respostas para essas perguntas. Através de uma articulação da Apoena Socioambiental, que está à frente do laboratório Dos Sinos do Várzea Lab, fui convidada pela IRI Brasil para visitar o INPE e o CEMADEN, ambos em São José dos Campos – SP. Apesar da Associação Cultural Vila Flores não ser uma instituição religiosa, o convite veio em função da nossa atuação com comunidades que enfrentam desastres climáticos como foi o caso da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.

Antes de contar sobre as visitas, uma breve explicação sobre o que são essas organizações.

A IRI Brasil - Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil, uma iniciativa internacional ligada ao Programa de Meio Ambiente da ONU (PNUMA), é uma plataforma de apoio às lideranças religiosas para que possam ampliar sua contribuição para a preservação do equilíbrio climático, a conservação e o uso sustentável das florestas e a proteção dos povos indígenas e das comunidades locais. Uma de suas ações são imersões no CEMADEN e INPE em que eles convidam em torno de 40 pessoas por vez para 2 dias de visitas. O idealizador da imersão é o incrível e inspirador engenheiro ambiental e pessoa super criativa Carlos Vicente. https://iribrasil.org/ 

O INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais é um órgão público do Brasil ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Ele serve para desenvolver pesquisas científicas, criar satélites, monitorar o desmatamento e as queimadas nas florestas, prever o tempo e estudar o clima e o espaço. https://www.gov.br/inpe/pt-br 

O CEMADEN - Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais é uma unidade de pesquisa responsável pela prevenção e gerenciamento da atuação governamental perante eventuais desastres naturais ocorridos em território brasileiro. Este centro também é vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. https://www.gov.br/cemaden/pt-br 

O grupo da visita era formado por lideranças indígenas e representantes de diferentes tradições espirituais e religiosas, incluindo Umbanda, Candomblé, Cristianismo, Santo Daime, entre outras de Estados como Acre, Amazonas e Pará. Éramos em torno de 30 pessoas super curiosas para o que estava por vir em dois dias intensos de muitos compartilhamentos de saberes e experiências. 

Visita ao INPE - observando o espaço e o nosso Brasil

O INPE é como se fosse a “NASA brasileira”. Esse instituto observa o que acontece no território brasileiro e no espaço, produz conhecimento e dados que ajudam o país a entender e prever mudanças ambientais e climáticas.

Na nossa visita, tivemos uma série de palestras sobre algumas das iniciativas do INPE:

Programa BiomasBR: ação que produz dados sobre os biomas brasileiros para ajudar a monitorar desmatamentos, queimadas e mudanças no território e verificar o cumprimento das regras ambientais. https://data.inpe.br/biomasbr/

Programa Queimadas: mostra onde estão acontecendo queimadas, acompanha sua evolução e produz dados que ajudam a entender e combater o problema. https://terrabrasilis.dpi.inpe.br/queimadas/portal/ 

Carta Internacional Espaço e Grandes Desastres: acordo internacional entre operadores de satélites para fornecer acesso prioritário a dados em caso de grandes desastres. Em 2024, o CENAD - Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres acionou a Carta Internacional por causa das enchentes no Rio Grande do Sul. A partir daí, foram mobilizados satélites de diferentes países e organizações. O INPE teve um papel central no processamento das imagens, inclusive para a definição das famílias desalojadas e desabrigadas que deveriam receber auxílio reconstrução. https://disasterscharter.org/

Programa AdaptaBrasil: plataforma que ajuda a entender como as mudanças climáticas podem afetar diferentes lugares do Brasil e o que precisa ser feito para se adaptar. Não é um sistema de alerta, mas sim de avaliação do risco climático de um território no presente e em diferentes cenários futuros, ajudando no planejamento de ações de adaptação. https://adaptabrasil.mcti.gov.br/ 

O Painel Cidades do AdaptaBrasil apresenta os dados de risco climático de uma forma inovadora, privilegiando a representação por Município. Nesta funcionalidade é possível consultar de forma detalhada os riscos climáticos em 6 Setores Estratégicos de cada um dos 5.569 Municípios do Brasil, além do Distrito Federal. Os Setores Estratégicos são: recursos hídricos, segurança energética, segurança alimentar, saúde, desastres geo-hidrológicos e biodiversidade. https://painelcidades.adaptabrasil.mcti.gov.br/ 

Exemplo de POA:

Uma coisa muito legal é que a equipe do AdaptaBrasil promove capacitações semanais gratuitas para a interpretação de riscos utilizando dados climáticos e socioecológicos do território nacional que estão na plataforma. O treinamento aborda conceitos sobre mudanças climáticas, impactos, mitigação e adaptação, além da metodologia, histórico e funcionalidades da plataforma. Os participantes ainda realizam exercícios práticos com orientação de um instrutor para análise dos riscos para os atuais nove setores estratégicos em relação aos municípios escolhidos pelos próprios participantes. 

Os interessados em realizar a capacitação gratuita online, podem se cadastrar neste formulário: https://forms.gle/zwN5xWpwcVdGLMJ4A Após o cadastro, o interessado recebe um email com as opções de datas dos cursos para escolher e se inscrever. As capacitações são realizadas através do aplicativo Zoom, com duração de 3 horas (teoria e prática), oferecendo também um certificado de participação a todos.

Além das palestras, fomos conhecer alguns espaços incríveis no INPE.

Um deles foi o Laboratório Vácuo-Térmico onde os satélites são testados antes de serem enviados ao espaço. Esse laboratório cria, aqui na Terra, condições parecidas com as do espaço para verificar se o satélite vai funcionar corretamente. Atualmente, o satélite Amazônia-1B está em processo de integração e testes no Laboratório de Integração e Testes (LIT). Ele está passando por testes finais e o lançamento está previsto para 2027. Vai produzir dados de observação da Terra, com destaque para o monitoramento de recursos hídricos. Não podíamos tirar fotos lá dentro, então, essa abaixo é do site do INPE.

Também fomos na sala de controle dos satélites. Lá estão computadores e monitores que mostram o estado de cada satélite, mapas das órbitas, mostrando onde os satélites estão e por onde vão passar, sistemas que permitem receber informações do satélite e enviar comandos para ele. Um exemplo de informação que chega à sala é: temperatura dos equipamentos, funcionamento dos sistemas elétricos, posição e orientação do satélite. A equipe analisa esses dados para perceber se algo está errado e, quando necessário, enviar comandos para corrigir a situação.

O INPE, então, nos ajuda a entender o que está acontecendo no ambiente. Já o CEMADEN usa essas e outras informações para entender onde isso pode gerar um desastre e seus impactos na população. 

Visita ao CEMADEN - alertando a população quanto aos riscos de desastres socioambientais

O CEMADEN monitora 1.295 municípios brasileiros 24 horas por dia, 365 dias por ano, acompanhando riscos de desastres como deslizamentos, inundações e enxurradas. Para isso, conta com uma Rede Observacional formada por equipamentos e instrumentos que coletam dados sobre as condições do território e ajudam a identificar situações de risco.

* PCD significa “Plataforma de Coleta de Dados”.

No site do CEMADEN tem MUITOS dados para nos mantermos informados do que acontece no Brasil! 

Dá pra começar pelo Mapa Interativo que mostra onde estão os equipamentos do CEMADEN e que permite consultar os dados que eles estão produzindo sobre chuva, rios e condições do solo. O mapa permite baixar os dados para trabalhar com eles depois: https://mapainterativo.cemaden.gov.br/

Mas quer saber sobre os principais impactos e orientações sobre o El Niño 2026-2027? Veja esses boletins mensais: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/monitoramento/el-nino 

Quer ver se tem algum alerta importante de chuvas intensas, inundações ou deslizamentos para o teu Estado? Veja esse painel: https://painelalertas.cemaden.gov.br/ 

Quer saber a probabilidade de ocorrer desastres associados a deslizamentos e chuvas intensas? Veja esses boletins: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/riscos-geo-hidrologicos/23-08-2026-previsao-de-riscos-geo-hidrologicos

Quer ver um mapa com os alertas de seca? Veja esse mapa: https://alertasecas.cemaden.gov.br/ 

Quer ver o monitoramento da seca e seus riscos e impactos no Brasil? Veja esses boletins: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/monitoramento/impactos-seca 

Quer saber sobre o risco de propagação de fogo? Veja aqui: https://produtos.cemaden.gov.br/fogo/

Quer saber quais os riscos de deslizamentos de terra? Veja aqui: https://georisk.cemaden.gov.br/ 

Quer acessar um banco de dados sobre desastres naturais que afetaram as pessoas e as cidades monitoradas pelo Cemaden? Veja aqui: https://reindesc.cemaden.gov.br/

Quer saber como eventos climáticos extremos (aumento do nível dos rios, secas e queimadas) podem afetar atividades importantes do país? Veja esses boletins: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/monitoramento/boletim-de-impactos-de-extremos-de-origem-hidro-geo-climatico-em-atividades-estrategicas-para-o-brasil

O CEMADEN tem um canal exclusivo para atendimento às demandas das Defesas Civis, lançado em 08/10/2024: https://faladc.cemaden.gov.br/ 

E as reuniões mensais de avaliação e previsão de impactos do Cemaden são transmitidas ao vivo pelo canal oficial no YouTube: Cemaden Oficial no YouTube

Dá pra seguir também o perfil no Instagram: https://www.instagram.com/cemadenoficial/ 

Fizemos uma visita à Sala de Situação do CEMADEN que é como uma central que fica acompanhando continuamente as condições do tempo, dos rios e do território para identificar riscos de desastres. Ela funciona 24 horas por dia, todos os dias.

Por turno, sempre haverá pelo menos um especialista de cada área: Extremos hidrológicos, Geociências, Extremos meteorológicos, Vulnerabilidade

A equipe cruza as informações e avalia se existe risco de um desastre acontecer, podendo então emitir um alerta para o CENAD - Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, que o encaminha às Defesas Civis.

Tivemos a honra de ouvir uma palestra de Marcelo Seluchi Coordenador-Geral do CEMADEN sobre a Caracterização do “El Niño” e seus possíveis impactos em setores estratégicos.

Ele nos mostrou que a frequência e intensidade de eventos do El Niño está cada vez maior.

1972-1973: Mais documentado até o momento. Impactos agrícolas e hidrológicos no Brasil

1982-1983: Caso muito intenso e subestimado. Grandes Impactos. Inundações em SC. Intensificação dos estudos científicos.

1997-1998: El Niño Muito forte (primeiro a ser bem previsto!). Muito estudado. Grandes impactos! Grandes incêndios na RR. Inundações no sul do Brasil.

2015-2016: Grande seca na Amazônia. Enchentes no Sul. Ondas de calor extremo.

2023-2024: Grande desastre do RS.

Neste gráfico abaixo, produzido pela NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) e CPC (Centro de Previsão Climática), estão as probabilidades de intensidade do El Niño. 65% de chance de El Niño muito forte no trimestre Agosto, Setembro e Outubro. Mais de 90% de chance de El Niño muito forte no trimestre Outubro, Novembro e Dezembro.

O que isso significa? Muita chuva no sul, muito calor no centro-oeste e sudeste e muita seca no norte.

O CEMADEN faz reuniões com foco na região sul e transmite no canal da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) no YouTube. https://www.youtube.com/@anagovbr 

Pra quem quiser entender o El Niño de forma simples e com animações, sugiro esse vídeo do Nexo Jornal:

https://www.youtube.com/watch?v=_SaNsxrkieI

Depois do Marcelo, ouvimos a Jeniffer Souza do Programa Cemaden Educação sobre essa iniciativa e a percepção de riscos e prevenção de desastres.

O Cemaden Educação disponibiliza cursos na sua plataforma: https://educacao.cemaden.gov.br/cursos/

Cursos de Educação em Redução de Riscos e Desastres:

  1. Educação Ambiental Climática e Redução de Riscos de Desastres
  2. Atividades de Ciência Cidadã e Participativa
  3. Atividades de Ciência Participativa

Além de ter uma super midiateca com publicações, jogos, vídeos e podcasts: https://educacao.cemaden.gov.br/midiateca/ 

Finalizamos a visita com a Oficina Engajamento Comunitário conduzida por Priscilla Françoso e Débora Olivato.

Em grupo, trabalhamos para responder essa pergunta: Quais ações podem ser desenvolvidas nas comunidades para prevenção/redução de riscos de desastres frente às mudanças climáticas e seus impactos?

No grupo em que eu estava, criamos o Núcleo Comunitário Multidisciplinar para o bairro de Tarumã em Manaus. 

E claro que tinha que ter arte também na nossa visita! Vimos o emocionante filme Amazônia Viva em óculos de realidade virtual. 

Com 10 minutos de duração, o filme é uma experiência imersiva pela região do Rio Tapajós, que utiliza filmagens em 360° para desvendar um dos lugares mais importantes do planeta e, assim, aproximar a Amazônia cada vez mais das pessoas. A cacica Raquel Tupinambá – da comunidade de Surucuá, onde também é respeitada liderança indígena – faz as honras da casa e guia o espectador durante a viagem virtual totalmente interativa por um dos biomas mais relevantes, bonitos e, infelizmente, ameaçados pela ação do homem.

O filme tem roteiro e direção do premiado cineasta brasileiro Estevão Ciavatta, da Pindorama Filmes, sendo “Amazônia Viva” a estreia do cineasta na direção com base em tecnologias de realidade virtual. Já o Studio KwO XR, especializado na criação, produção e distribuição de vídeos 360° e 3D, foi o responsável por trazer toda a linguagem virtual e imprimir ao filme qualidade tecnológica compatível com o roteiro.

Uma experiência muito linda e sensível em que a gente se sente dentro, embaixo e em cima da Amazônia! 

Tudo isso que vivemos e sentimos em dois dias no INPE e CEMADEN foi realmente muito transformador. Conhecer as pessoas que fazem ciência de ponta no Brasil, que produzem, analisam e compartilham dados importantíssimos para nossa vida no planeta foi algo para ficar para sempre na memória. E saímos de lá com a força e o desejo de cada vez mais lutar por florestas vivas e pela vida digna de todos os seres. 

Um grande agradecimento à toda a equipe maravilhosa da IRI-Brasil, o pessoal da coordenação, da produção, do audiovisual, e também à equipe de alimentação, do transporte, do hotel e à todos que nos receberam com muito carinho no INPE e CEMADEN! E claro, um agradecimento mais que especial à Apoena Socioambiental pela articulação e à Daiana Schwengber que foi uma super parceira nessa aventura.

 

Todas as apresentações das palestras estão nesta pasta: MATERIAIS INPE E CEMADEN 

As fotos da imersão que ilustram esse texto foram feitas pelo fotógrafo Wallace Cordeiro e podem ser acessadas aqui: PARTICIPANTE